Educação e mediação
Li um dia desses a queixa de um professor americano — creio que de uma dessas faculdades de liberal arts — sobre a capacidade de leitura dos alunos. “Não se pode mais pedir que leiam a Ilíada em três semanas”, dizia ele. “Já sabemos que não lerão. Sou obrigado a passar apenas um Canto.”
Há todo um gênero literário, em forma oral como em escrita, de queixas sobre a queda no nível intelectual dos estudantes universitários. Corresponde, creio, ao antigo gênero de queixas de professores primários sobre o comportamento e os valores das crianças — ou, em sua versão mais recente, sobre falta de atenção e abuso de telas. O próximo vilão a ser perseguido, em todos os níveis escolares após a alfabetização, parece ser o ChatGPT.
Os alunos não querem mais ler a Ilíada em três semanas — minha surpresa é que o fizessem antes. Quer dizer, assusta-me que o professor tenha a coragem de pedir que leiam um Canto inteiro, em casa. Como é que se faz? É uma tradução inglesa? Em versos, ou em prosa? Esses rapazes sabem ler versos? Alguém lhes ensinou como fazê-lo? Têm alguma condição de entender o sentido da invocação, sabem algo sobre o contexto do poema, reconhecem os nomes das personagens? Conseguem interpretar as figuras de linguagem homéricas, inclusive aquelas que se escoram na língua grega arcaica e no gênero da epopéia antiga?
As crianças não prestam atenção à aula, não por culpa dos celulares, ou da televisão, ou do rádio, ou da invenção da escrita; é que não sabem fazê-lo. Ninguém jamais lhes exigiu que prestassem atenção a coisa alguma. Todos cruzaram os braços e esperaram que percebessem sozinhas o que tinham que fazer; ou se lhes pediram explicitamente, e foram ignorados, cruzaram os braços e deixaram que os ignorassem. Não houve instrução, não houve ameaça, não houve castigo — não houve disciplina. E ainda chamaram tudo isso de bondade, gentileza, caridade, “educação positiva”.
Os jovens não lêem a Ilíada em três semanas porque também não sabem fazê-lo — e digo mais: estão mais corretos que a geração anterior, que também não sabia, mas lia mesmo assim, e saía arrotando um conhecimento que não tinha digerido; e hoje está assentada nas cátedras, coaxando injúrias contra os mais novos. É mais fácil que admitir que não estão preparando esses meninos para ler a Ilíada porque também não sabem ler a Ilíada; porque em sua própria graduação leram o poema às pressas, uma vez que ninguém lhes exigiria conhecimento profundo — era preciso pular rapidamente para os Principia Mathematica ou O Capital.
Ao trabalhar com órfãos, imigrantes e refugiados, Feuerstein percebeu que suas deficiências intelectuais eram em grande parte causadas pela falta de mediação: responsáveis sobrecarregados ou incapazes não conseguiam fazer por elas o papel normal de um adulto, pegando-as pela mão e lhes dizendo: “veja, é assim que se faz.” O que Feuerstein não imaginava é que um dia todos os homens se comportariam como refugiados e expatriados: que as crianças seriam abandonadas e esquecidas, enquanto os adultos culpam a inovação tecnológica por todos os seus problemas. “Como posso corrigir meu filho, se tenho um iPhone? O fantasma de Steve Jobs me oprime. Algum influencer me convenceu a jogar minha TV fora e a não comprar mais açúcar, mas adivinha só: a vida ficou um porre, e meus filhos continuam mal-educados.”
A despeito do que lemos nos pedagogos modernos, crianças não aprendem muito sozinhas. Se o fizessem, nunca teríamos inventado as escolas. E a despeito do que lemos em muitos psicólogos, elas também não aprendem a se controlar sem sofrer repressão — o que Freud sabia muito bem, mas alguns de seus leitores preferem ignorar. Se os adolescentes estão batendo muito papo com o ChatGPT, talvez seja porque os adultos não lhes dão bola; e se os estudantes universitários não sabem ler, deve ser porque os professores não acham que precisam ensinar. Quem admitir sua responsabilidade primeiro, e começar a corrigir-se, será também o primeiro a ter bons filhos e bons alunos: o ChatGPT veio para ficar, mas nossos erros podem e devem ser deixados para trás.




Professor, um outro ponto que acho que geração de professores vai demorar para assimilar é o golpe fatal que o ChatGPT deu na concepção de uma educação meramente enciclopédica. Será que toda aquela erudição livresca vai impressionar quem tem consciência de que com um simples prompt pode chegar algo parecido (ou até superior)?
Conte comigo, mestre Ha Jinsung